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Abertura de Capital: Entenda as causas e como funciona o IPO.


Recentemente tivemos uma onda de IPOs (Initial Public Offering) no Brasil, tendo uma série de empresas que solicitaram autorização à CVM para negociar ações na bolsa de valores. Ainda em 2019, esperava-se que 2020 seria um ano cheio de IPOs baseado na expectativa de crescimento mais sólido após a recessão iniciada em 2014, representado pelo alcance do índice IBOVESPA ao patamar de 119 mil pontos em janeiro.

Porém, com o início da pandemia em março, os mercados foram derrubados mundialmente, assustando os investidores e consequentemente as empresas que paralisaram seus processos de abertura de capital.

Mas o que realmente chama a atenção é que, mesmo após o choque no mercado causado pela pandemia, tivemos 33 companhias solicitando sua abertura de capital na bolsa brasileira. O que explicaria isso?

Dados recentes de outubro disponibilizados pela B3 demonstram que ocorreu um crescimento de 82,4% de CPFs cadastrados na bolsa somente esse ano, acumulando aproximadamente 3 milhões de investidores. Esse aumento significativo teve como principais causas a queda da taxa de juros básica da economia, levando-a a mínima histórica de 2%, somado a desvalorização nos preços dos ativos listados em bolsa, intensificando a migração da renda fixa para variável.

Além disso, a taxa Selic a 2% gerou para as empresas um cenário de valorização de seus ativos no momento da abertura de capital, já que possibilitou, uma menor taxa de desconto utilizada no valuation, baseando-se no método de fluxo de caixa descontado(DCF). Frutos da menor taxa de desconto, as empresas tiveram seu custo de capital próprio reduzido, visto que essa taxa é descontada as receitas futuras e está vinculada a taxa básica de juros. Visto isso, as companhias identificaram que dispondo das mesmas projeções de receita, teriam seu valor presente líquido maior, dado a menor taxa de desconto. Deste modo, grande parte das empresas foi atraída por esse momento único vivenciado no Brasil, onde já se fala que até o final do ano teremos cerca 60 ofertas de abertura de capital.

Ao olharmos para essa quantidade de empresas realizando seus pedidos de IPO, deduz-se que tal processo é simples e fácil, porém, veremos neste artigo que não é simples assim…


O que é?


O IPO (Initial Public Offering) ou Oferta Pública Inicial trata-se, de maneira simplificada, do processo de abertura de uma companhia de capital privado/fechado para capital aberto, podendo dessa forma ser negociada na bolsa de valores, no Brasil a B3. Esse processo possibilita que investidores possam se tornar sócios desta empresa, comprando suas ações no mercado.

Existem duas formas de IPO, sendo a Oferta de Ações Primária e a Oferta de Ações Secundária.

A Oferta de Ações Primária é a mais recorrente, caracterizada pela emissão de ações/títulos pela empresa para o mercado, sendo assim, o valor arrecadado com a venda destes ativos são destinados ao caixa da empresa.

No caso da Oferta de Ações Secundária, consiste na venda de parte de ações já existentes, pertencentes aos sócios desta companhia, que querem por algum motivo diminuir ou se desfazer da sua participação, ou seja, é a transferência de ações entre investidores, assim, portanto, o valor das ações será recebido pelo vendedor dos papéis sem gerar caixa para a empresa.


Por que fazer?


O processo de IPO é extremamente importante para o mercado de capitais, sendo ele responsável por aumentar o número de empresas listado em bolsa, assim possibilitando que investidores diversifiquem seus ativos, diminuindo os riscos da renda variável. Além disso, propõe-se também como uma forma das empresas diminuírem sua alavancagem, aumentando a participação de capital próprio em sua estrutura, e também sua relevância por se tornarem conhecidas no mercado.

Desta forma, é possível elevar a quantidade de ativos listados na bolsa, com empresas que trazem novas ideias e potencial de crescimento, tendo como objetivo o financiamento de seus projetos.

Não é difícil de visualizarmos a importância deste recurso: ideias inovadoras não são realizadas apenas com pensamentos e palavras. Desta forma, para além da força de vontade, é também necessário investimento para crescimento do projeto, tornando assim o IPO uma ótima ferramenta para a captação de recursos.

A abertura de capital também passa a incentivar uma gestão mais profissional e resultados mais transparente, tendo em vista pontos como: a avaliação do valor do negócio é facilitada; - há uma maior rotatividade de sócios; - a possibilidade de adquirir bens em troca de ações, levando a uma gestão mais transparente e eficaz. O processo também traz benefícios para o público, por se tratar de uma nova oportunidade para investir e ganhar com a valorização das ações e com os dividendos distribuídos. Além disso, a abertura de capital promove o desenvolvimento da economia, estimulando o mercado e o crescimento das organizações. É importante ressaltar que os recentes IPOs não demonstram crescimento econômico instantâneo, mas representam possibilidade de crescimento das companhias, levando ao desenvolvimento da economia no futuro.

Entretanto, existem também desvantagens em realizar a abertura de capital. Com o IPO e a entrada de novos sócios, os antigos proprietários podem perder o controle sobre a administração da empresa, o que pode não ser bom em todos os casos. Além disso, a organização precisa assumir mais responsabilidades, como a produção e divulgação dos relatórios financeiros, e também estar mais atenta à legislação, pois o controle público é maior. Além do fato de que, se a saúde financeira da empresa não estiver boa, as negociações podem ser dificultadas por conta do facilitado acesso dos credores às informações da organização.

Para o investidor, as desvantagens em comprar ações no lançamento do IPO de uma empresa são os riscos financeiros da companhia e a eventual liquidez desses títulos. De modo geral esses lotes são negociados com grandes players e fundos, o que acarreta em um menor número de ativos para investidores individuais.

Elaboração própria. Fonte: B3.


Processo de IPO


Planejamento

Para iniciar, de fato, o processo de abertura de capital, o primeiro passo é realizar um bom planejamento. Por se tratar de um processo dispendioso e demorado, é necessário analisar sob as mais diversas perspectivas possíveis. São criadas equipes de contadores, auditores, consultores e advogados, que irão analisar cada detalhe das demonstrações financeiras e outros documentos da empresa. A presença de erros pode causar grandes problemas para a consolidação do IPO.

Roadshow

Consiste em reuniões organizadas pelas instituições financeiras que estejam assessorando o processo. A finalidade destes encontros é apresentar a empresa para o mercado e gerar interesse em grandes investidores. O CEO e os principais executivos normalmente participam destas reuniões, e buscam tirar dúvidas dos investidores.

Registro perante a CVM

Após a análise de todos os documentos, o próximo passo é realizar um registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e também na listagem da B3. Após estes registros, a empresa deve fazer um aviso de mercado. Em seguida, a empresa precisará montar um prospecto do seu IPO, um documento que contém todas as demonstrações financeiras da empresa, em um período de três exercícios, além de outras informações operacionais.

Prospecto

É o principal documento da abertura de capital, contendo todas as informações relevantes para os investidores. O documento contém informações sobre a empresa, setor de atuação e perspectivas, além de dados sobre oferta propriamente dita e os riscos associados à ela.

Período de reserva

Os grandes investidores costumam realizar suas reservas durante o roadshow. Entretanto, existem também outros investidores de menor porte, como as pessoas físicas. É aberto então um período de reservas, em que estes investidores dizem a quantidade de ações que desejam adquirir, através de corretoras de valores.

Bookbuilding

Nesta etapa, avaliam-se os níveis de receptividade do mercado e de interesse dos investidores em comprar ações da empresa, através das quantidades reservadas. A partir dessas informações as ações serão precificadas para seu lançamento. O preço das ações é então divulgado.

Estreia na bolsa de valores

Também chamado de dia D, consiste na data em que, de fato, haverá o início das negociações das ações da empresa durante o pregão. Os investidores assistem ao desempenho dos papéis com bastante euforia, por se tratar de uma forma de avaliar a receptividade da empresa pelo mercado.

Uma boa opção de investimento?

Sem sombras de dúvidas é um dos assuntos que mais gera polêmicas e opiniões divergentes, já que se analisarmos veremos casos de sucesso e fracasso.

Porém, pelo fato de um IPO configurar uma novidade, as empresas, de maneira estratégica, realizam a abertura de capital aproveitando cenários otimistas dos investidores e que a chegada desse ativo cause euforia no mercado, valorizando seu preço inicial. Essa valorização pode constituir ganhos no curto prazo, talvez ganhos que não serão consistentes com o passar do tempo, uma vez que o mercado é cíclico. Por fim, quando for perdido o otimismo, trará como consequência a desvalorização.

Visto isso, os IPOs podem gerar ou não ganho para o acionista, o que realmente importa é que o investidor tome sua decisão baseado em sua estratégia de investimento e não por euforia do mercado.

Tenho algumas dúvidas, o que fazer?

Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.

Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq.usp@gmail.com.

Vamos conversar!

Isabela Fontana e Pedro Squiapati

23/10/2020

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