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Circuit Breaker: Conheça mais sobre esse mecanismo da Bolsa de Valores

Em 2020, o mundo foi impactado por uma nova pandemia que não acontecia há anos. Consequentemente, o caos tomou conta das bolsas de todo o planeta e aqui no Brasil isso não foi diferente. O pânico causado pela confirmação do primeiro caso de contaminação no país (em 26/02/2020) fez o Ibovespa fechar o dia com queda de 7%. Esse acontecimento foi apenas a “ponta do iceberg” para o que vinha posteriormente: uma sequência incrível de quedas durante o mês de março, exigindo que a B3 (Bolsa de Valores do Brasil) acionasse o circuit breaker. Mas afinal, o que é o circuit breaker e como ele funciona?


O que é Circuit Breaker?


O circuit breaker nada mais é do que um mecanismo que a Bolsa de Valores utiliza para interromper as negociações, quando o Ibovespa (índice da B3) cai mais de 10%, independente de qual tenha sido o motivo para essa queda brusca. Ele é acionado com o objetivo de reduzir essa volatilidade, equilibrando as ordens de compra e venda. Assim, é possível amenizar as quedas e trazer um movimento natural no mercado.


Tudo isso promove uma maior sensação de segurança para o investidor, pelo fato de que o mecanismo evita que ocorram negociações equivocadas (realizadas no desespero) e, assim, possibilita ao investidor ter um tempo para se planejar e tomar uma decisão melhor posteriormente. Existem algumas regras para o funcionamento do circuit breaker na bolsa e elas serão detalhadas no próximo tópico.


Esse mecanismo foi criado em 22 de outubro de 1987, após o crash da Bolsa de Valores de Nova York. Esse dia ficou conhecido como Black Monday, já que o índice norte-americano Dow Jones Industrial Average (DJIA) caiu 508 pontos (22,6%), representando a maior queda percentual do índice em um mesmo dia. Assim, o FED (Federal Reserve, considerado como o Banco Central deles) e as Bolsas de Valores buscaram criar o circuit breaker para fornecer tempo aos investidores, no sentido de refletir a respeito dessa interrupção nas negociações.


Funcionamento


Segundo o manual de procedimentos operacionais do segmento Bovespa (revisão 04 de 07/04/2010), existem três regras principais para o acionamento do circuit breaker:

  1. Primeiro Circuit Breaker - quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento do dia anterior. Por exemplo, se a bolsa abre o dia com 90 mil pontos e começa a apresentar uma tendência de queda, quando ele chegar nos 81 mil pontos (10% de queda) o circuit breaker será acionado. Nesse momento, as negociações são interrompidas por 30 minutos e ninguém tem a permissão de comprar e vender ações.

  2. Segundo Circuit Breaker - após a reabertura das negociações, o índice pode continuar caindo. Se ele chegar em uma porcentagem de 15% de desvalorização (em comparação com o último fechamento do dia anterior), novamente o circuit breaker será acionado. Usando o exemplo da situação 1, se a Bolsa cair de 90 mil pontos para 76.500 pontos (15% de queda), o mecanismo é acionado e as negociações são paralisadas por 1 hora.

  3. Terceiro Circuit Breaker - Por fim, existe a possibilidade de um terceiro estágio de circuit breaker. Supondo que a bolsa permaneça caindo e chegue a uma desvalorização de 20% (sempre lembrando, em relação ao fechamento do dia anterior), ocorrerá a terceira interrupção no dia. Com base no exemplo criado anteriormente (90 mil pontos), a bolsa teria que chegar aos 72 mil pontos para o mecanismo ser acionado. Nesse caso, a suspensão ocorre por tempo indeterminado e a B3 divulga em seus canais de comunicação (oficiais). O principal objetivo aqui é evitar o “efeito manada”, onde os investidores se assustam cada vez mais com as quedas e resolvem vender suas ações antes que percam tudo.

Aqui é necessário destacar uma observação muito importante: não existe a possibilidade do circuit breaker ser acionado nos 30 minutos finais da sessão de negociação do dia. Existe a possibilidade dele ser acionado na última hora do pregão, entretanto, haverá o acréscimo de no máximo 30 minutos no encerramento da sessão de negociações.


Esse é o caso do Brasil com relação ao funcionamento do mecanismo. Em outras bolsas pelo mundo, o funcionamento não necessariamente será semelhante, visto que cada uma tem a sua própria regra para conduzir as negociações. Porém, o objetivo permanece o mesmo: amenizar o pânico no mercado.


Nos Estados Unidos, por exemplo, o NYSE e a NASDAQ (bolsas americanas) acionam o mecanismo quando ele chega aos 7% de desvalorização, interrompendo as negociações durante 15 minutos. Se chegar aos 13% de queda, são mais 15 minutos de paralisação e caso chegue aos 20% posteriormente, as negociações são canceladas durante o dia inteiro.


Por fim, mais dois exemplos são da China e do México: a Bolsa da China (SSEC) realiza o primeiro circuit breaker quando a queda chega em 5% e a Bolsa do México (BMV), quando a queda chega nos 7%.



Histórico


  • Crise asiática 97 - Crise financeira na Tailândia, Malásia, Filipinas e Coreia do Sul. Em outubro de 1997, a Bolsa de Valores de Hong Kong registrou queda de 10,4%, derrubando outras Bolsas no mundo. Na Bolsa de Valores do Brasil, ocorreram 3 paralisações. O mecanismo de circuit breaker foi acionado nos dias: 27 de outubro, e 07 e 12 de novembro daquele ano.

  • Moratória da Rússia 98 - Em 1998, uma grande crise financeira na Rússia resultou na declaração de moratória de sua dívida interna e externa. O evento teve grandes impactos nas principais economias do mundo, inclusive no Brasil, onde a Bolsa de Valores registrou perda de US$30 bilhões. Nessa ocasião, a ferramenta de circuit breaker foi acionada em 5 momentos: 21 de agosto, 04, 10 (2 vezes) e 17 de setembro.

  • Mudança Cambial 99 - O período de transição do plano real e da mudança de câmbio fixo para câmbio flutuante foi marcado por um período de grande volatilidade e desvalorização do real. A mudança no regime cambial nacional fez com que o Banco Central fosse obrigado a negociar dólares no mercado futuro, aumentando a quantidade de dólares na economia e contribuindo para a queda da Bolsa. Por isso, nos dias 13 e 14 de janeiro de 1999, as condições negativas resultaram na ocorrência de dois circuit breakers.

  • Crise Lehman 2008 - A crise financeira e bancária que se iniciou nos EUA com a queda dos preços de imóveis, que resultou na falência de várias instituições, entre elas o Lehman Brothers, um dos maiores bancos do mundo na época, teve grandes repercussões na economia global. Os efeitos também foram sentidos na Bolsa do Brasil, que precisou acionar o circuit breaker 6 vezes: em 29 de setembro, 6 de outubro (2 vezes), 10, 15 e 22 de outubro.

  • Joesley Day 2017 - Em 18 de maio de 2017, o mercado brasileiro sofreu as consequências da delação do dono da JBS, Joesley Batista. Na gravação, o empresário revelou detalhes de operações que envolviam diversos políticos importantes, entre eles o então presidente do Brasil, Michel Temer (MDB). Além disso, a prisão do ex-diretor da companhia, Frederico Pacheco de Medeiros, foi anunciada. Frederico foi citado como responsável pelo repasse de R$2 milhões da JBS para o então senador Aécio Neves (PSDB). Estes acontecimentos geraram uma queda significativa do valor das ações da Bolsa de Valores. Neste dia, o Ibovespa chegou a cair mais de 10% e algumas grandes empresas foram bastante afetadas. Como a Cemig (CMIG4), que registrou queda de 41% no valor de suas ações.

  • Covid-19 2020 - o último acionamento do circuit breaker na bolsa brasileira foi no ano passado, como já mencionado anteriormente ao longo do texto. O cenário de preocupação causado pela Covid-19 não foi o único a impactar o mercado em março de 2020, já que a queda no preço do petróleo (ocasionado por um desacordo entre a OPEP e a Rússia para tentar cortar a produção da commodity) também foi considerada um dos fatores. Na contrapartida disso, a Arábia Saudita decidiu reduzir o preço do barril e aumentar sua produção.

Além disso, ainda naquele período de pânico, outras três notícias ocasionaram a ocorrência dos circuit breakers:

  • A suspensão de viagens da Europa (exceto Reino Unido) para os Estados Unidos durante 30 dias, determinada por Donald Trump e que também tinha como exceção pessoas com residência fixa no país e parentes imediatos de cidadãos americanos;

  • O desacordo entre o congresso brasileiro e o governo, após a derrubada do veto de Jair Bolsonaro sobre o projeto que ampliava o acesso ao Benefício de Prestação Continuada;

  • E por fim, os dados sobre a queda da economia chinesa e o corte na taxa de juros dos EUA que foi de 1,25% para 0,25%.


Resumo


O circuit breaker não é considerado um evento comum de se acontecer. Exceto, como visto anteriormente, em situações de grandes volatilidades. Existe a possibilidade de que isso aconteça outras vezes, contudo, é impossível prever quando isso acontecerá, assim como aconteceu nos outros casos mencionados acima. Por isso, aqui vão algumas dicas para você não se desesperar e procurar manter a calma sempre que isso acontecer.


Quem investe em ações, normalmente visa se tornar sócio das empresas e investir nelas pensando no longo prazo. Por isso, se você conhece bem os fundamentos dessa empresa e possui uma estratégia de investir no longo prazo, não há necessidade de se desesperar. Isso evita com que você consolide perda, além de te oferecer novas oportunidades, já que as ações estarão com preços mais baixos.


Mas é sempre bom lembrar que você deve observar se essas ações mais baratas realmente valem a pena. Além disso, a dica é ir comprando aos poucos, já que novas quedas podem ocorrer. Lembrando novamente, sempre mantenha a calma quando investir na bolsa e não tome decisões precipitadas: crises são comuns no mercado financeiro e são nesses momentos que os grandes investidores adotam estratégias para construir fortunas.


Tenho algumas dúvidas, o que fazer?

Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.

Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq@usp.br

Vamos conversar!

Guilherme de Lima e Luiz Eduardo Ferreira Marcelino

23/09/2021


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