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Créditos de Carbono e suas oportunidades

Não é novidade para o mundo contemporâneo o agravamento dos distúrbios climáticos e ambientais causados pelas emissões de gases do efeito estufa através das ações antrópicas. A expansão dos setores agrícola, comercial e industrial (indústrias de energia, aço, têxteis, fertilizantes e cerâmica) causou o aumento da demanda de energia proveniente da queima de combustíveis fósseis, como, o petróleo, carvão mineral e o gás natural. Com isso, a Organização das Nações Unidas (ONU), virou seus holofotes para esse assunto que coloca a vida do planeta em que vivemos em risco.


Nesse contexto, não demorou para surgirem protocolos que tinham como objetivo a redução da emissão dos gases do efeito estufa, como, principalmente, o dióxido de carbono (CO2) e o metano (NH4).


Dentre eles, o Protocolo de Quioto deu origem aos créditos de carbono em 1997, quando definiu que os países envolvidos no acordo internacional (dentre eles, Alemanha, França e Brasil) deveriam reduzir 5,2% das emissões de gases do efeito estufa entre 2008 e 2012. Entretanto, a obrigação de cada país é diferente, visto que foi adotado o princípio de “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, sendo maior o dever de redução dos países desenvolvidos em razão de serem historicamente, os maiores emissores de poluentes.


Todavia, o Acordo de Paris (que entrou em vigor em 2016), marcou o fim do acordo realizado no Protocolo de Kyoto e deu origem a um novo protocolo. A partir disso, cada país ficou responsável pelo quanto quer reduzir, como irá reduzir e de quem irá comprar os créditos de carbono.


Mas para falarmos sobre este assunto, é necessário entendermos o que são créditos de carbono. Sucintamente, os créditos de carbono são unidades de medida que correspondem ao equivalente a uma tonelada de dióxido de carbono (t CO2e) que deixou de ser emitida na atmosfera. Esta medida é usada para calcular a redução de gases do efeito estufa e seu possível valor de comercialização.



Isso significa que, nações as quais promovem uma diminuição na emissão de gases poluentes recebem uma certificação que contará como créditos de carbono, podendo ser comercializada com outros países que não reduziram suas emissões. Segundo o Potencial de Aquecimento Global (Global Warming Potential - GWP) todos os gases do efeito estufa são convertidos em t CO2 e; logo, quanto mais uma nação reduzir a emissão destes gases, maior será a quantidade de créditos de carbono disponíveis para comercialização. No Brasil, a Petrobras está listada entre as 20 empresas produtoras de petróleo e gás natural que mais contribuem para a poluição global.


Mas ao contrário do que parece, o crédito de carbono não é um certificado de algo físico, mas sim, digital. A empresa ou nação que possui esse selo, prova que poluiu menos o meio ambiente e pode, assim, vender seu certificado para as empresas ou nações que poluíram mais.


Como foi tratado no início deste artigo, a importância dos créditos de carbono está implícita à saúde do planeta, à medida que há um incentivo na redução da emissão de gases poluentes. Uma vez que podem ser comercializados, verifica-se uma efetiva diminuição da emissão. Isto é, as nações desenvolvem tecnologias, e aprimoram suas indústrias, comércio e setor agrícola, para que consigam emitir menos gases do efeito estufa, acumular créditos de carbono e consequentemente, melhorar a qualidade de vida da Terra. De acordo com alguns especialistas, a humanidade está prestes a enfrentar um colapso se não diminuir a emissão dos 55 milhões de toneladas de CO2.



Mas como funcionam na prática?


Para aplicarmos esse conceito, é preciso vermos exemplos práticos. Na indústria, uma fábrica de cerâmica, em Santa Isabel, utilizava óleo pesado (BPF) como combustível. Devido ao fato de ser derivado do petróleo, além de altamente poluente, as fuligens geradas a partir da queima deste óleo são prejudiciais à saúde dos seres vivos.

Como solução, substituíram por biomassa renovável; o que, além de reduzir emissões de gases poluentes, gera créditos de carbono. Esse e mais outros projetos podem ser vistos acessando o site Sustainable Carbon (sustainablecarbon.com/projetos/).


Do ponto de vista financeiro, o qual é de interesse neste artigo, esclarecemos o motivo deste selo digital ser tão importante no mercado. Primeiramente, existem dois tipos de mercado de carbono, o voluntário e o regulado.


No voluntário, as empresas compram créditos de outras para compensar sua grande emissão, de modo espontâneo. Todavia, apesar de estar crescendo, não chega a 5% do que é negociado.


Já no regulado, o governo determina metas de comercialização, de modo a estimular a descarbonização e incentiva as empresas a investirem em formas que visam a diminuição da emissão de gases. As empresas que emitem mais, podem comprar certificados das que poluem menos.


Com isso, as compradoras passam a ser classificadas como “carbono neutro”, o que é uma estratégia importante de marketing. Além disso, compradores e vendedores podem usar uma plataforma de troca, assim como uma bolsa de valores de créditos de carbono. Tem-se como exemplo, o mercado europeu, que em 2020, movimentou 200 bilhões de euros.



No Brasil também existe o programa Renovabio que estabelece metas para estimular o mercado de biocombustíveis e reduzir a emissão de gases do efeito estufa, obrigando as distribuidoras a comprarem os ativos (CBIOS) gerados pelo uso do etanol, que emite menos dióxido de carbono e consequentemente, gera créditos. Esses créditos são vinculados aos produtores de cana-de-açúcar, tornando-se uma nova fonte de receita. O programa ganhou tração após a confirmação das novas metas de emissões para 2020, e já movimentaram mais de R$300 milhões na B3.



De forma prática, ambos os mercados têm como função a compensação, então se uma empresa não consegue reduzir sua emissão de carbono, ela pode comprar a cota não utilizada de outra que emita menos, de modo a reduzir a quantidade de gases poluentes na atmosfera. Podemos destacar a Tesla, que já possui a maior parte de sua receita oriunda da comercialização de créditos de carbono. Atualmente, o preço de uma tonelada de carbono vale em média U$60.


A expectativa é de que os preços do mercado de carbono subam num futuro próximo, mas apesar disso, é considerado um investimento de risco em razão das oscilações que uma política governamental pode causar nesse mercado.


Entendendo melhor as diferenças


De forma intuitiva podemos tirar algumas conclusões baseado na classificação dos dois mercados. Porém, além das diferenças implícitas pelo nome, existem outras que são importantes e se relacionam com princípios de oferta e demanda que nos ajudará a entender os possíveis caminhos que este mercado poderá tomar.

Como vimos, o mercado regulado é derivado de metas impostas cabendo às empresas reduzirem suas emissões a fim de atingir o limite estabelecido. Como consequência é “criado” um mercado entre nações e empresas. Já os créditos do mercado voluntários são gerados por projetos que sequestraram ou evitaram emissões, por exemplo, projetos florestais (REDD +), portanto, este mercado é representado não somente pela redução, mas também pelo sequestro de carbono.



E por que isto é relevante?


Para que as metas citadas anteriormente sejam atingidas será necessária a mudança da matriz energética, criando um grande desafio para toda economia e em especial para indústria do petróleo, aumentando consideravelmente a demanda por estes ativos.














Figura 2: Compromisso de descarbonização de algumas das maiores empresas do mundo.




Fonte: MOSS


Diante do atual nível de emissão e o tempo estabelecido para atingir as metas ambiciosas de descarbonização, cabe a nós a reflexão de qual forma essas empresas serão capazes de atingi-las.


Em primeiro lugar, sem dúvida será investimento em tecnologia, como representado pelo CAPEX na figura acima, porém, somente a redução causada por estas tecnologias não será o suficiente.


É neste contexto que o mercado voluntário pode vir a ser tão importante, já que essas empresas talvez serão obrigadas a compensar suas emissões, recorrendo aos créditos gerados por estes projetos que constituem o mercado voluntário. Logo, esses ativos podem sofrer intensa valorização nos próximos anos.


Isso explica o recente movimento de grandes empresas compensando suas emissões no mercado voluntário, pois em um cenário onde os créditos se valorizem e as restrições sejam ainda mais severas, essas empresas terão um gasto muito maior para se compensar.



É válido ressaltar o potencial que o Brasil possui neste mercado, já que 80% da sua matriz energética é descorrelacionada dos combustíveis fósseis e possuímos 40% de todo carbono florestal do mundo, o que explica, em parte, a atenção de outros países, em especial os mais desenvolvidos, quanto a política ambiental brasileira e suas consequências.



Investimentos, empresas e créditos de carbono...


Pois bem, após exposto o desafio da transição energética e a importância destes créditos, quais são as oportunidades?


Atualmente existem alguns fundos ESG, que permitem a exposição a estes mercados. Temos como exemplo a Vitreo Carbono, com um investimento inicial de R$1000. Há também, o Safra Direct Carbono; ambos investem exclusivamente no mercado europeu. Já a TrendCarbonoZero, da XP, com o menor tíquete de entrada, oferece exposição tanto no mercado europeu como no Americano, com exposição de 75% e 25% respectivamente.


Outro ponto, são empresas que são carbono neutra ou negativas, geralmente ligadas a geração de energia “limpa” (solar, eólica e bioenergéticas) ou que substituem produtos em que em seu processo haja intensa emissão destes gases como plásticos e fertilizantes, podem ser boas alternativas..


Esses investimentos têm ganhado espaço por serem sustentáveis e descorrelacionado dos produtos tradicionais no mercado financeiros e do risco que estes possuem.


Se olharmos na bolsa de valores, as empresas que aderem à práticas sustentáveis de produção (ESG), são vistas com “bons olhos”, por investidores. Segundo a XP Investimentos, o primeiro filtro dos investidores é feito pelo ESG, e depois o seu valuation e custo do ativo. Com um investidor mais informado e consciente, principalmente no futuro pós pandemia, empresas que se preocupam com o planeta, serão mais procuradas. Em resumo, as práticas ESG, como por exemplo, a “carbono neutro”, se tornam uma vantagem competitiva, trazendo maior retorno e menos “sustos” no longo prazo.



Tenho algumas dúvidas, o que fazer?


Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los. Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq.usp@gmail.com Vamos conversar!


Juliana Basolli Borsatto e Pedro Hatem Squiapati



30/06/2021

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