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Entenda o que foi a Crise Financeira de 2008

O que foi a crise de 2008


A crise ocorrida em 2008 foi a de maior impacto sócio-econômico pós-quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929, que desencadeou uma recessão econômica que ficou conhecida como a Grande Depressão, devido principalmente à superprodução e à especulação financeira nos Estados Unidos da América. A crise de 2008, por sua vez, teve como principais desencadeadores a crise dos subprimes, o estouro da bolha imobiliária e a falência em série de grandes bancos americanos, provocando um efeito dominó na economia.


Linha do tempo pré-crise

  • Década de 80 - Estagnação da renda das famílias americanas.

  • Final década 90 - Expansão de oferta de crédito nos EUA, principalmente devido ao crescimento da internet.

  • 11 de Setembro de 2001 - Ataques terroristas pela organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda às torres do World Trade Center.

  • Outubro de 2001 - Guerra ao Terror: Mobilização americana liderada por George Bush que resultou na invasão do Afeganistão e Iraque, com gastos exorbitantes gerando inflação nos Estados Unidos.

  • 2004 - Federal Reserve (equivalente ao Banco Central) aumentou o juros da economia para tentar conter a inflação.

  • 2006 - Algumas instituições financeiras que forneciam créditos imobiliários começaram a falir.

  • 15 de setembro de 2008 (estopim) - Banco Lehman Brothers declarou falência (4º maior banco americano na época).


Bolha Imobiliária


Para garantirmos o fácil entendimento, imagine que você queria comprar um imóvel, mas não possuía a quantia necessária para pagá-lo à vista, portanto, foi ao banco e solicitou um empréstimo. Como a concessão de empréstimos nos EUA estava alta, você conseguiu facilmente essa quantia, mesmo estando desempregado, pois naquele momento não era necessário comprovar renda ou que você possuía condições de honrar com aquela dívida. Mas como uma prática comum, você precisava oferecer uma garantia ao banco caso não conseguisse pagar (conhecido como fiador no Brasil), portanto, você colocou sua casa como garantia - a chamada hipoteca nos EUA.

Até este momento, tudo poderia parecer viável, contudo, a situação se tornava mais complexa à medida que você poderia utilizar a mesma casa hipotecada como fonte de garantia de pagamento de outros empréstimos. Ou seja, caso naquele momento você buscasse outros bancos e solicitasse outros três empréstimos, você poderia hipotecar a mesma casa para todos os empréstimos, obtendo agora 4 dívidas com apenas um “fiador” - uma operação financeira de alto risco que é chamada de subprime.


Do outro lado, estão os bancos que concederam estes empréstimos, assim, permanecemos com a pergunta: “como eles lucram com essa situação?”. A resposta gira em torno de um ativo financeiro chamado CDO (Obrigações de dívidas com garantia), em que os bancos reuniam títulos de dívidas de alto risco (subprime), com títulos de dívidas de baixo risco (dívidas de bons pagadores) e ofertavam este investimento para investidores do mundo inteiro, como se este investimento possuísse baixo risco. Por consequência, estes investidores iriam receber o valor investido mais o juros específico como ocorre em títulos de dívidas normalmente, mas para isso, os americanos que fizeram os empréstimos precisavam honrar com seus pagamentos.


Não obstante, os investidores que estavam comprando esse papel não sabiam de fato o tipo de dívida que os CDO’s incluíam, pois grandes empresas de classificação de risco, como Fitch Ratings, Standard & Poor’s e a Moody’s Analytics, classificavam esses investimentos como de alto nível.


O resultado foi:


Os devedores não conseguiam honrar com suas dívidas os bancos e fundos de investimentos tinham os títulos de dívida que não possuíam mais valor, e portavam uma obrigação com os investidores → estes bancos e fundos faziam empréstimos com outras instituições financeiras para não permanecerem descapitalizados → os investidores que compraram os CDOs passaram a ter um investimento que não carregavam valor real, mas apenas especulativo.


Após anos com este cenário, a bolha estourou e gerou um efeito dominó na economia (a princípio nacional, mas posteriormente internacional), com falência de bancos, milhões de pessoas perdendo suas economias, aumento do desemprego e aumento de pessoas desabrigadas.


Como outras economias reagiram à crise mundial:

Oficialmente, a recessão terminou em 2009, mas suas consequências ainda repercutiram por muitos anos em diversos países e para grande parte da população. A maioria dos países criou planos de socorro às economias, a fim de estimular os bancos e tentar minimizar os impactos da crise. Nos Estados Unidos e na Europa, os governos buscaram resgatar instituições financeiras em falência utilizando o dinheiro de impostos. Após reunião com o G20, um grupo formado por ministros de finanças e chefes de bancos centrais, as principais economias do mundo reconheceram a necessidade de estimular os mercados globais e entraram em acordo quanto a uma série de políticas para incentivar o crescimento.

Analisando os impactos econômicos na economia estadunidense, mais de 7,3 milhões de empregos foram reduzidos no período entre janeiro de 2008 e fevereiro de 2010, resultando no aumento da taxa de desemprego em, aproximadamente, 10%, e acentuando a desigualdade social no país. Além disso, diversas instituições financeiras norte-americanas tiveram seus ativos reduzidos por conta de empréstimos sem lastro suficiente, isto é, empréstimos para famílias incapazes de saldar suas dívidas e que tiveram suas casas tomadas pela ausência de pagamento.

Desse modo, o governo norte-americano assumiu o controle de instituições, como a Fannie Mae e Freddie Mac, e o Congresso do país aprovou US $700 bilhões visando ajudar os bancos que se encontravam em situações próximas à falência. Ainda, o banco central americano, Fed, também colaborou com a compra de títulos de dívidas de empresas durante os seis anos seguintes.

No início da posse de Barack Obama, o presidente assinou a Lei da Recuperação, a qual aplicava mais de US $800 bilhões em programas de resgate e investimento em infraestrutura, educação, saúde e energia renovável. O estímulo fiscal melhorou o déficit orçamentário federal com a elevação de 12% do PIB em 2009 e reduziu a taxa de desemprego no país, retornando, aos poucos, à situação anterior à crise de 2008.

Já os países da União Europeia, ofereceram um pacote de resgate para instituições financeiras em um total de US $700 bilhões no Reino Unido e mais de US $2,5 trilhões na zona do euro. Também em 2008, foi realizado um plano de recuperação com medidas de incentivo de 1,5% do PIB do bloco. Por outro lado, os governos adotaram medidas impopulares que causaram tensões e crises, sendo a Grécia um dos países mais atingidos, quase deixando de fazer parte da União Europeia.

Outro país que foi atingido pela crise de 2008 foi a China, visto que sua economia depende em grande parte do setor exportador e que foi impactado pela queda na demanda global devido à retração econômica da maioria dos países. Sendo assim, o governo chinês anunciou um pacote de estímulo de US $585 bilhões em projetos de infraestrutura e expansão monetária, visando aumentar o consumo da população. Nesse contexto, os bancos chineses cresceram e se tornaram mais lucrativos do que seus concorrentes ocidentais.

Por fim, a economia russa, que conta fortemente com a exportação de commodities, sofreu os impactos com a queda do preço do petróleo diante da redução da demanda global. Sendo as exportações de petróleo e gás correspondentes a 40% da receita federal russa, após o início da crise, a economia do país reduziu 7,9%.


Como o Brasil ficou diante desse aspecto econômico?

Quais as consequências e medidas tomadas no país?

Em geral, os países emergentes, como o Brasil, sofreram menos os efeitos da crise. No entanto, apesar de um impacto menor do que em outras economias, como a norte-americana e europeia, a crise teve influência significativa no país. Um dos fatores consequentes desse aspecto econômico foi a queda de 4% da bolsa de valores do país, Bovespa, sendo considerada a maior queda desde a década de 1970.

Outro aspecto decorrente foi o aumento significativo no preço do dólar devido à tentativa dos investidores de resgatar as aplicações após a quebra de confiança no mercado. Além disso, empresas como a Sadia e Aracruz, reportaram prejuízos milionários com investimentos, condição que resultou na falência e fusão de companhias. Isto posto, as expectativas de crescimento econômico do país foram reduzidas e o PIB brasileiro, que em 2008 havia aumentado 5,2%, no ano seguinte sofreu uma retração de 0,3%.

Após esses acontecimentos, o governo brasileiro adotou medidas que foram essenciais para conter danos e prejuízos. Entre as medidas adotadas, o governo reduziu a taxa básica de juros, conhecida como taxa Selic, de 13,75% para 8,75% em 2009. Com a queda dos juros Selic, as despesas com o pagamento de juros para empréstimos, tanto por parte de pessoas físicas quanto de empresas, foram aliviadas, visando aumentar o dinheiro em circulação.

Ademais, houve a diminuição da alíquota de impostos, como o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para automóveis, produtos de linha branca (eletrodomésticos) e materiais de construção, e a liberação em depósitos para os bancos como forma de incentivo à produção das indústrias, ao consumo da população e que, consequentemente, aumentaram a liquidez no mercado.


Curiosidades:


  • A renda familiar norte-americana reduziu mais de 25% entre 2007 e 2008.

  • Nos Estados Unidos, o desemprego saltou para 10,1%, configurando o maior percentual desde 1983.

  • O índice S&P 500, formado pelos ativos das 500 maiores empresas dos EUA pertencentes às bolsas, teve uma queda aproximada de 45%.

  • Em outubro de 2008, após anunciar prejuízo trimestral de mais de R$ 2 bilhões, a Sadia fundiu com sua maior concorrente, a Perdigão, originando a BRF, uma empresa multinacional brasileira do ramo alimentício.

  • Outra grande fusão de companhias brasileiras foi o acordo de aquisição da Aracruz, empresa produtora de celulose, com a VCP, resultando na criação da Fibria.

  • Nos anos de 2008 e 2009, o governo brasileiro usou as Estatais como forma de combate à crise. Por exemplo, a Petrobras teve um aumento de 22% de dólares em seus investimentos, totalizando US $37,4 bilhões.

  • Sugestões de filmes, documentários e livros para compreender melhor a crise e suas consequências:

  1. Filme “A Grande Aposta” (2015) - Oscar de melhor roteiro adaptado;

  2. Filme “Grande Demais Para Quebrar” (2011);

  3. Filme “Os últimos dias de Lehman Brothers” (2009);

  4. Filme “Nomadland” (2021) - ganhador de 3 Oscars, incluindo de melhor filme;

  5. Documentário “Trabalho Interno” (2011);

  6. Livro “Margin Call – O Dia Antes do Fim”.

Tenho algumas dúvidas, o que fazer?


Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.


Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq@usp.br


Vamos conversar!


Bárbara Silva e Gabriel Zimbaldi


07/10/2021


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