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Eufrásia: A primeira mulher investidora no Brasil e sua influência nos dias atuais

Você já ouviu falar da Eufrásia?


Eufrásia Teixeira Leite foi uma mulher que viveu no século XIX, em uma cidade no interior do Rio de Janeiro, e era filha de uma família rica, pois seu pai, Joaquim José Teixeira Leite, era comendador de café e nesse período o café vivia em sua melhor fase econômica. Seu pai José incentivava os estudos da Eufrásia e de sua irmã, principalmente na área de finanças, para saber administrar a riqueza da família, indo contrário ao senso comum da época, já que durante o século XIX as mulheres não tinham direitos que a tornassem independentes como temos no século XXI.


Depois que Eufrásia ficou órfã, ela decidiu estudar na Europa e com parte da herança recebida, ela passou a investir na bolsa de valores. O mais curioso é que nessa época as mulheres não podiam realizar a compra e venda de ativos de forma direta, na Bolsa de Paris as mulheres só podiam assistir ao pregão no segundo andar. Eufrásia tinha um agente, o Alberto Guggenheim, que pegava as ordens dela e executava nas rodas de negociação, onde só homens podiam participar. Eles trocaram cartas até a morte dela, comprovando que ela tinha total controle da gestão do seu patrimônio.


O perfil dela como investidora era considerado agressivo e ela tinha um portfólio extenso e bem diversificado, com negociações ligadas a 17 países diferentes e em 9 moedas distintas. Ela priorizou títulos de grandes empresas, com destaque para a Companhia Antarctica Brasil, atual Ambev. Além disso, também realizou diversos investimentos no setor ferroviário, tendo papéis da Cia. Mogiana de Estradas de Ferro e Cia. Paulista de Estradas de Ferro, enquanto no setor têxtil, ela investiu em ações da Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira e da Companhia América Fabril & Cia.


É muito interessante pensar na genialidade e empoderamento da Eufrásia nesse período, a exemplo, ter negócios espalhados pelo mundo todo e com diversas moedas, sendo que nem tínhamos a tecnologia que hoje facilita todas as transações para as pessoas, além do fato das mulheres, atualmente, conseguirem negociar de forma direta.


Eufrásia Teixeira Leite faleceu sem deixar herdeiros e, portanto, sua fortuna foi doada para a cidade em que nasceu, Vassouras, no interior do Rio de Janeiro, e também para diversas instituições a fim de ajudar as pessoas mais pobres. É importante ressaltar que ela foi reconhecida apenas em 2019 como a primeira mulher investidora do Brasil pela B3 e pela ONU Mulheres.


Mas como isso impactou nos dias de hoje?


A iniciativa de Eufrásia, incentivou mais mulheres a gerirem seu dinheiro. Esse pontapé inicial permitiu que elas tivessem, cada vez mais, coragem de enfrentar o machismo da época e, então, administrar suas finanças.


No ano de 2021, cerca de 190 anos depois, a B3 (Bolsa de Valores Brasileira) atingiu o marco de 1 milhão de CPFs femininos cadastrados. Isso representa um grande avanço na questão de gênero do mercado financeiro, mesmo que ainda seja pouco em comparação aos homens, uma vez que este número expressa apenas 27,34% do total de investidores. Hoje em dia, com o advento da internet e dos aplicativos de corretoras, é muito mais simples participar de um pregão da bolsa se compararmos com a época em que Eufrásia viveu. Nesse período, “as mulheres não podiam descer porque, se trombassem fisicamente com os homens ali no pregão, era considerado promíscuo. Então, ela assistia do segundo andar, fazia as boletas de negociação e um agente descia e ia para fechar os negócios”.



Embora Eufrásia não tenha sido reconhecida por sua trajetória financeira na época, atualmente surgiram projetos levando seu nome, como a #QueroSerEufrásia, que se tratava de um treinamento para que mulheres tirassem a certificação CPA-10; principal exigida pelas agências bancárias. Nessa certificação, as mulheres são maioria (cerca de 52% do total), todavia, conforme aumenta o nível das certificações, menos mulheres a possuem. A exemplo disso, apenas 18% das certificações de CNPI são de mulheres e apenas 3% tem CFA.


O desafio que nós, mulheres, enfrentamos agora, é termos chegado atrasadas nas questões da sociedade, como, no voto, no mundo do dinheiro, no mercado de trabalho ou no mercado financeiro. Essa liberdade que temos hoje, começou na Europa após a Segunda Guerra Mundial, quando seus maridos não voltavam para casa e eram elas que tinham que além de cuidar dos filhos, sair para trabalhar e administrar seu próprio dinheiro. Já no Brasil, a mulher só pôde abrir conta própria em banco a partir de 1962.


Estamos mudando este cenário


As jovens investidoras chegaram com força no mercado financeiro. Hoje, o grupo de mulheres entre 16 e 25 anos, que investe na B3, já alcançou o número de investidoras da faixa etária de 56 a 65 anos.


Ao contrário do que muitos pensam, essa mudança no cenário não significa apenas um avanço para as mulheres, mas sim, para o país. A cada novo investidor, independente do gênero, o potencial de mudar a cultura do país aumenta.


Para que o número de mulheres investidoras seja cada vez maior, precisamos fortalecer nossa base de educação financeira e desmistificar o pensamento de que investir é difícil. Devemos ensinar as crianças a cuidarem do próprio dinheiro e possuírem seu próprio pensamento a respeito dele. Segundo T. Harv Eker, em seu livro “Os Segredos da Mente Milionária”, tudo que acreditamos sobre o dinheiro vem da formação que recebemos e crescemos escutando dos nossos pais. Ou seja, a forma que lidamos com ele é algo cultural. Sendo assim, nos conscientizarmos sobre essa desigualdade de gênero será de extrema importância para o futuro do país e de fato, da igualdade das mulheres.


Tenho algumas dúvidas, o que fazer?


Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.


Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq@usp.br


Vamos conversar!


Juliana Borsatto e Laura de Oliveira Jeremias


30/09/2021





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