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Gasolina por R$10,00? Os reflexos da inflação no preço dos combustíveis

Diante de um cenário caótico e pandêmico em que vivemos nos últimos dois anos, observamos o aumento de preço de diversos produtos (principalmente das commodities) por diversos motivos. Porém, o grande choque de oferta ocasionado após a retomada das atividades econômicas de maneira mais enfática, tornou-se a pedra no sapato da inflação: um mundo inflado pelas políticas expansionistas dos bancos centrais espalhados pelo mundo.


Em outubro de 2021 houve um novo anúncio da Petrobras de mais um reajuste no preço da gasolina e do gás de cozinha, com um aumento de 7,2%. Os aumentos têm sido recorrentes ao longo do último ano, gerando um efeito cascata que influencia diversos setores da economia, bem como contribui para inflação sentida no bolso dos consumidores brasileiros. Segundo o anúncio da empresa, o preço médio da gasolina será de R$2,98 nas distribuidoras.


É claro, sabemos que não somente o preço dos produtos em si aumentou, mas, principalmente diante de nossa moeda brasileira, a moeda americana utilizada mundialmente teve um salto astronômico ocasionado pela fuga do capital para ativos menos arriscados em um cenário de incertezas, que ainda se mantém. O câmbio BRL/USD teve uma variação de quase 38% entre outubro de 2019 e outubro de 2021, evidenciando um cenário de pressão para os ativos dolarizados no cenário nacional.


Vários desses ativos fazem parte do “hall” dos combustíveis, como a gasolina, o diesel e o gás de cozinha, produtos básicos para a economia brasileira, principalmente considerando uma malha de transporte focada na matriz rodoviária. Não é difícil perceber que o preço desses produtos tiveram aumentos em diversos momentos durante a pandemia, mas o que realmente compõe o preço desses produtos?

Para que possamos compreender melhor qual a composição dos preços da gasolina especificamente, é importante compreender a logística de distribuição, comercialização e revenda de seus produtos derivados:


Primeiro, a Petrobras, o mercado externo de derivados do petróleo e os importadores comercializam os produtos para os distribuidores que, a partir daí, fazem a mistura entre gasolina e etanol (estabelecida por segurança pela lei de 25 a 27% do volume da gasolina) e repassam para a revenda. Perceba que os diversos agentes envolvidos no processo querem uma parte da receita para manter sua operação e ser rentável, assim gerando a composição de preços definida abaixo.


Segundo dados da própria Petrobras, a composição do preço da Gasolina C (aquela que sai da refinaria e é vendida diretamente para os consumidores nos postos) com a inclusão dos impostos, a receita da Petrobras e das distribuidoras corresponde ao seguinte:


*27% da gasolina comercializada detém álcool, por isso existe o Custo relacionado ao Etanol


No entanto, essa composição de preços nem sempre foi assim. Antes de 1997 com a Lei do Petróleo (Nº 9478/97), a Petrobras detinha o monopólio de distribuição, revenda e produção de petróleo e derivados no Brasil, assim também possuindo o monopólio do preço que acaba se tornando desvinculado do mercado internacional de petróleo. A partir de 1997, as importações de petróleo e derivados foram autorizadas e, a partir disso, o preço tornou-se vinculado ao mercado internacional e suscetível a variações econômicas e cambiais bruscas.


Essa mesma lei foi modificada em 2010, com a lei nº 12351/10, possibilitando ainda a venda de poços para exploração do petróleo, principalmente nas descobertas das bacias do pré-sal, mesmo que a Petrobras detenha a prioridade no processo de compra desses poços e, portanto, ainda possuindo um benefício em relação às demais empresas.


Esse processo de flexibilização das regras de exploração do petróleo vem também para juntar-se ao momento de reestruturação atual das atividades da Petrobras, em que a empresa vem fazendo uma série de desinvestimentos em sua atuação, seja na área de distribuição (como venda de grandes gasodutos no Nordeste) ou na área do refino (como na venda de refinarias no Brasil e fora), para que seu enfoque seja na exploração do pré-sal - operação esta que detém uma expertise diferenciada de qualquer empresa petrolífera no mundo.


No campo de mudanças voltadas especificamente para os impostos, o atual governo Bolsonaro enviou uma proposta de lei complementar ao Congresso Nacional para alterar como o ICMS dos combustíveis são cobrados pelos estados da União, incluindo uma espécie de valor fixo de tributação (e não alíquota percentual) e, portanto, protegendo o preço contra eventuais aumentos cambiais bruscos. Atualmente, a alíquota sobre a gasolina varia de 25% a 34% de acordo como estado de cobrança e, portanto, contribui para uma discrepância de preços regionais no Brasil. Em contrapartida, essa alteração pode diminuir a arrecadação tributária dos impostos, o que iria piorar a situação fiscal dos estados e consequentemente a situação político-econômica do país. Abaixo, encontramos a evidência prática dessas diferenças de ICMS e outros fatores que influenciam a diferença de preço entre estados:

Fonte: Petrobras (dados de revenda de 27/6/2021 a 03/7/2021)


Mas, afinal, até quando esse aumentos constantes irão ocorrer? É difícil delimitar em que momento os preços irão finalmente se estabilizar, considerando que ainda há diversos fatores que influenciam no curto prazo o preço, especialmente a variação cambial e o preço do etanol, que é um dos componentes da gasolina. Mesmo assim, é possível usar métodos para inferir os preços futuros com base na cotação do etanol que é registrada pelo “Indicador Semanal do Etanol Hidratado Combustível CEPEA/ESALQ - São Paulo”.


Para tal previsão optamos pelo uso da regressão linear, mesmo com as restrições metodológicas, utilizamos as variáveis: Y = o preço do litro etanol excluindo fretes e impostos; e X = Tempo em dias. Usamos como base o preço do etanol nos últimos 2 anos, ou seja, de outubro de 2019 até 2021, para que esteja refletido o momento de grande incerteza que a pandemia gerou. Foi encontrado uma correlação(r) entre as variáveis de 62,95%, ou seja, existe uma alta correlação. Ao utilizarmos o método da regressão linear, chegamos a equação Y=1,43+0,002*X.


Fonte: criado pelos autores com a base dados do CEPEA/ESALQ


Fonte: criado pelos autores com a base dados do CEPEA/ESALQ


Com base nessas informações, chegamos ao resultado de que o etanol custará em torno de R$5,00 por litro sem o custo do frete e dos impostos daqui cerca de 2 anos e meio. Considerando que atualmente a base de impostos é de cerca de 40% do valor final ao consumidor, o preço final será de aproximadamente R$7,00 em 2024. E, ainda considerando que existe uma relação de preço de cerca de 70% entre os preços do etanol e da gasolina, já que o próprio etanol faz parte da composição da gasolina vendida no Brasil, é possível acreditar com base nesses dados que ainda em 2024 o preço da gasolina estará acima dos R$10,00. Alcançando assim pela primeira vez os dois dígitos.


É importante salientar que todas as conjecturas feitas neste artigo são com base em amostras estatísticas, ou seja, não são previsões com base no uso da regressão linear, realizada de forma simplificada, sendo assim sujeita a falhas.


Tenho algumas dúvidas, o que fazer?


Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.


Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq@usp.br


Vamos conversar!


Rafael Carnier Muniz e Renan Mello


15/10/2021


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