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Green Bonds: seu dinheiro contribuindo para a transformação da sustentabilidade corporativa

Atualizado: 26 de nov. de 2021

A tendência das novas gerações preocupadas com a agenda socioambiental em investir e comprar de empresas que cuidam para que suas atividades tenham impacto social e ambiental positivo na sociedade, vem mudando a dinâmica de fazer negócios. A sigla ESG está em evidência há um tempo e já apareceu em algumas das nossas publicações anteriores, caso queira saber mais.


Segundo Fábio Zenaro, diretor de novos negócios da B3, em entrevista para a revista Exame em 2020, disse: “Identificamos essa tendência tanto entre investidores institucionais quanto entre pessoas físicas. É uma tendência muito forte”. Ou seja, empresas e pessoas estão investindo cada vez mais em ações, atividades ou produtos que demonstrem harmonia entre desenvolvimento econômico, bem-estar social e conservação ambiental.


Para atender a essa demanda de investidores conscientes, além de contribuir com a transformação das organizações que querem ampliar a sua sustentabilidade corporativa, o mercado financeiro vem desenvolvendo diferentes estratégias. Entre elas estão os Green Bonds, ou Títulos Verdes na tradução para o português.

O que são?


Adaptar processos e atividades para que contribuam com o alcance de metas internacionais socioambientais, como a Agenda 2030 da ONU, torna-se necessário o investimento de um grande volume de capital. Quanto maior o impacto e abrangência das suas atividades, maior a necessidade de investimento para promover uma mudança efetiva e também maior o potencial de impacto positivo com essas mudanças. Nesse contexto, o setor financeiro tem um papel essencial na mobilização do capital necessário.


Os títulos verdes (Green Bonds), são títulos de dívidas que podem ser emitidos por empresas públicas, privadas ou de capital misto. Sua principal diferença em relação aos títulos de dívida comum é que esses valores só podem ser utilizados para financiar investimentos considerados sustentáveis – como uso de energia limpa e renovável, promover a eficiência do uso de recursos naturais, destinação e tratamento adequado de resíduos, etc.


Esses títulos surgiram com o intuito de alavancar novos projetos e tecnologias dentro de organizações, com o objetivo de reduzir as emissões de CO2 na atmosfera, cumprindo as metas do Acordo de Paris para manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2ºC. Os Green Bonds, permitem que investidores aloquem seus recursos em iniciativas que contribuam com a mudança dos processos. Dessa forma, os investidores conectam empresas com projetos relevantes para promover o desenvolvimento sustentável.

Panorama mundial


Em novembro de 2008, o Banco Mundial emitiu o primeiro Green Bond do mundo, dando origem ao processo de desenvolvimento sustentável no mercado financeiro e demonstrando a possibilidade de conciliar sustentabilidade e rentabilidade. Ao longo do tempo, diversas outras empresas e instituições passaram a emitir Green Bonds.


O ano de 2017 foi marcado por um aumento na emissão de títulos verdes, que passou de US$30 bilhões em 2016 para mais de US$160 bilhões em todo o mundo.


Em 2019, as emissões de títulos verdes somaram US$266,5 bilhões no mundo. Segundo a Climate Bonds, mesmo com a pandemia no ano de 2020, a emissão de títulos verdes atingiu o recorde de US$269,5 bilhões, comprovando, assim, o que afirmam estudos sobre a pandemia de covid-19 ter aumentado o interesse de investidores em negócios sustentáveis.


Embora o ano de 2020 tenha apresentado um pequeno aumento em relação ao ano anterior, considerando o impacto negativo da pandemia no cenário econômico e social, o recorde demonstra a força desses novos investimentos. Nesse contexto, a resiliência dos mercados de financiamento verde levou a um ano recorde de emissão e o mercado espera um ressurgimento no ano de 2021.


Como é possível observar no gráfico ao lado, o tamanho do mercado cumulativo em 2020 demonstra uma taxa média de crescimento anual de 60% desde 2015, acumulando mais de US$1 trilhão em investimentos sustentáveis no mundo.


O banco sueco, Skandinaviska Enskilda Banken (SEB), instituição que desenvolveu o conceito de títulos verdes junto com o Banco Mundial, considera que, após o impacto causado pela pandemia, apostar em produtos com foco sustentável pode ser uma alternativa interessante.


No Brasil, as emissões dos primeiros Green Bonds ocorreram no ano de 2015, sendo a BRF Foods a responsável pela estreia. Mais tarde, a empresa foi exemplo seguido pela Suzano, AES Tiete, Taesa, entre outras organizações.


Em 2018 as emissões desses títulos no Brasil foram bastante afetadas pela insegurança causada pelas eleições à presidência do país. No entanto, em 2019 os Green Bonds brasileiros movimentaram R$11,4 bilhões – cerca de US$3 bilhões – e no ano de 2020 as emissões de títulos temáticos ligados a sustentabilidade somaram US$ 5,3 bilhões em 37 operações. Apesar do crescimento, o Brasil ainda é iniciante no assunto.


Considerando sua posição de agroexportador e com a maior parte da Floresta Amazônica dentro do seu território nacional, componente importante para a manutenção do clima mundial, o país tem um grande potencial de evoluir na emissão de títulos para captar recursos destinados a projetos que promovam a conservação ambiental.


Um estudo realizado pela Climate Bonds e publicado em junho desse ano chamado Análise do Mercado de Financiamento Sustentável da Agricultura no Brasil apresentou que, desde 2015 até 2021, o mercado brasileiro alcançou a marca de US$10,7 bilhões acumulados em títulos verdes utilizados ​​para financiar projetos de agricultura sustentável no país. Esse é o setor com maior potencial de emissões verdes no Brasil e existem estimativas que apontam que esses valores podem chegar a US$163 milhões até 2030.


Como investir em Green Bonds?


De modo geral, os Green Bonds são produtos financeiros de renda fixa. Sendo assim, contam com a rentabilidade pós-fixada, prefixada ou híbrida. São investimentos de longo prazo e com menos riscos, considerando que a preocupação socioambiental se reflete em empresas mais eficientes e, consequentemente, mais lucrativas.


No Brasil, as alternativas disponíveis são títulos conhecidos na renda fixa. Abaixo têm-se alguns exemplos:


O CRA (certificado de recebíveis do agronegócio) é um título de crédito privado vinculado ao ramo do agronegócio. Algumas empresas rurais, cooperativas e produtores trocam seus recebíveis futuros por dinheiro à vista. Esses recebíveis lastreiam títulos que são negociados no mercado.


O CRI (certificado de recebíveis imobiliários) possui funcionamento semelhante ao CRA. No entanto, o título tem lastro em recebíveis do mercado imobiliário. Geralmente, são provenientes de negócios com construtoras e imobiliárias que precisam levantar capital com celeridade.


As debêntures são títulos de crédito privado, emitidas por empresas que buscam a captação de recursos para o seu caixa. Nela é apontado o valor, o prazo e juros que serão pagos, de acordo com as definições da companhia.


O fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) é uma modalidade coletiva que reúne investidores sob a gestão de um profissional, ele destina grande parte de seu capital para aplicações de direitos creditórios.


Logo, basta abrir uma conta em uma corretora de investimentos e buscar por esses títulos. Para identificar os títulos certificados como verdes, leia o prospecto das ofertas e verifique se na emissão daquele título existe algum propósito ligado ao meio ambiente e um selo de certificação.


Caso você tenha interesse no mercado de ações, outra forma de buscar companhias envolvidas em projetos de sustentabilidade é adotar o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3 como métrica. Esse índice foi criado para analisar as companhias que se enquadram em aspectos de sustentabilidade corporativa para eficiência econômica, equilíbrio ambiental, justiça social e governança corporativa. As empresas brasileiras que cumprem com as regras mínimas são consideradas elegíveis.

Com essa métrica, você não precisa investir somente em títulos emitidos com o objetivo sustentável, mas também buscar em empresas que se adequam aos critérios, investindo também em suas ações.


O crescimento das emissões verdes está atrelado a uma mudança de mentalidade entre os investidores que estão integrando questões ambientais, sociais e de governança em suas estratégias. Essa mudança gera um movimento em cadeia, onde as empresas passam a adotar padrões mais elevados de transparência em relação aos seus dados socioambientais. Isso faz com que enxerguem oportunidades de melhoria, aumentando a emissão dos títulos verdes com o intuito de atrair investidores que possam financiar essas mudanças.


No último ano, mesmo setores intensivos em carbono, como o de mineração e o de petróleo, comprometeram-se a adotar mecanismos de divulgação das emissões e dos impactos sociais e isso tem um grande impacto na criação de metas e estratégias de redução do processo de mudanças climáticas.


Outro importante acontecimento que impacta o mercado de títulos verdes é o Green Deal Europeu. Trata-se de um plano que visa neutralizar as emissões europeias para que o continente se torne o primeiro climaticamente neutro até 2050. Anunciado durante a Conferência do Clima da ONU (COP25) em 2019, nele, estima-se que a descarbonização europeia irá precisar de 1 trilhão de euros em investimentos na próxima década.


Conforme apontado pela Luíza Belém, em um artigo publicado pela LIGA FEA/USP, a União Europeia possui um poder de influência bastante significativo na comunidade internacional e, apesar de não possuir a jurisdição para obrigar outros Estados a seguirem as diretrizes semelhantes ao Pacto, sua relevância econômica e política impõe implicitamente que os demais países “sentem ao seu lado nas mesas de negociação”. Assim, considerando que o bloco seguirá de acordo com seu ordenamento interno, com uma transição energética progressiva, é possível que haja uma maior pressão internacional sobre o tema.


Além disso, existe uma preocupação de reguladores e governos em estabelecer padrões para a emissão de títulos verdes e o Green Deal abre caminho para a criação de um sistema para classificar investimentos socioambientais. A expectativa do mercado é a criação de um “selo verde” europeu, que determine critérios para a emissão de Green Bonds. Evitando, assim, o chamado greenwashing e servindo de base para a criação de selos em outros países.


No Brasil, os Green Bonds são emitidos seguindo critérios da ISO 14030 que classifica projetos sustentáveis, além de serem certificados por órgãos competentes. Ademais, o Ministério da Economia afirma estar trabalhando para desenvolver um método rápido de certificação de Green Bonds para agilizar o processo de emissão.


A ideia é viabilizar emissões tanto estaduais quanto federais. Isso possibilitará o aumento de investimentos em áreas essenciais para garantir a qualidade de vida de milhões de brasileiros, como expandir a abrangência dos serviços de saneamento básico e a diversificação do uso de energia renovável pelo país.


Seja em ações ou em títulos, não há dúvidas de que a métrica da sustentabilidade veio para ficar. Não existe mais a necessidade de buscarmos por rentabilidade sem propósito. O movimento dos Green Bonds demonstra que o mercado financeiro está assumindo seu papel para promover mudanças positivas em nossa sociedade e vem estimulando que outros setores também se movimentem.


Segundo Maria Clara Dias, repórter da revista Exame: “Os títulos verdes se tornaram, então, o braço direito do que pode ser considerado o caminho para um capitalismo ambientalmente responsável”.


Tenho algumas dúvidas, o que fazer?


Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.


Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq@usp.br


Vamos conversar!


Fabiana Bastos e Mayara Costa


28/10/2021


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