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Inflação, a velha conhecida dos brasileiros retorna com força

Nos últimos 20 anos, os brasileiros se acostumaram a conviver com um cenário de inflação relativamente baixa. É claro, não tão controlada quanto nos países desenvolvidos, mas, com algumas exceções (como em 2003, 2015 e 2016), os anos dessas décadas que se seguiram ao Plano Real têm sido bem tranquilos, quando comparados ao caos vivido ao longo do séculos XX, em especial nos anos 1980 e 1990.


Entretanto, a crise da Covid-19 e outras questões, que serão abordadas mais à frente neste texto, têm feito os índices de inflação no Brasil e em boa parte do mundo sofrerem um aumento que há tempos não víamos. Por isso, vale a pena lembrar um pouco mais desse conceito e quais suas origens.


Primeiro, é interessante lembrar que a inflação é um fenômeno comum nas economias de todos os países e se refere ao aumento constante (não sazonal) dos preços de produtos e serviços. Ela pode acontecer por diversos motivos, como por exemplo, o aumento dos custos de produção, um aumento da demanda que não consegue ser acompanhado pelo aumento da oferta, descontrole fiscal por parte dos governos, entre outros.


Sendo assim, o artigo a seguir vai explorar essa questão, abordando um pouco sobre a situação inflacionária no mundo, em especial nos países desenvolvidos e emergentes, como é o nosso caso, e então focar na situação brasileira, com o objetivo de compreender se os fatores que pressionam os preços por aqui são os mesmos que têm feito isso no resto do mundo.


Como os países estão sendo afetados por essa inflação mundial


No mundo todo os preços estão subindo e há um culpado principal, o Sars-Cov-2. Isso é um fato, já que a pandemia desorganizou cadeias globais de suprimentos, fez com que indústrias tivessem que ficar fechadas e que serviços não pudessem ser executados. Viagens e eventos foram cancelados, pessoas e empresas se endividaram. Até mesmo países tiveram que contrair empréstimos ou emitir títulos para conseguir pagar pelo combate ao vírus. Nesse cenário, era difícil imaginar que não haveria um profundo impacto econômico resultante da Covid-19.


Contudo, os fatores que levam à inflação variam muito de país para país e, inclusive, estão ligados a fatos sem relação com a pandemia, que já estavam gerando problemas muito antes desse novo vírus ser uma questão. É o caso, por exemplo, das mudanças climáticas, resultantes de ações humanas, que afetam de forma grave a produtividade de lavouras, muitas vezes destruindo produções inteiras, aumentando custos e gerando incertezas.


Isso fez com que economias fortes e consolidadas sofressem com aumentos de preços que não viam há tempos. Na Europa, a inflação é a maior em 13 anos e nos EUA, em 30. Os países mais afetados, contudo, são os da América Latina, onde os bancos centrais têm entrado em uma corrida para o aumento de taxas básicas, como ocorreu com a SELIC no Brasil, que em poucos meses saltou de 2% para os atuais 7,75%. A tabela a seguir mostra as expectativas de inflação para 2021 e 2022 de algumas regiões, segundo a Bloomberg:



Como é possível observar, a América Latina é o grupo de países com maior expectativa de aumento e com um agravante em itens essenciais, como alimentos e gás de cozinha. Na África, a situação também é crítica e segue padrões parecidos com os do Brasil. Já nos países mais desenvolvidos, as coisas mudam um pouco. Nos EUA, os preços de bens duráveis como carros têm sido os vilões da inflação, enquanto na Alemanha, são os eletrônicos e o aluguel.


Enfim, a grande questão que todos esperam resposta é de quando iremos sair dessa, e se iremos. As incertezas com a Covid-19 permanecem, sobretudo na Europa, onde o aumento expressivo de casos e mortes têm levado governos nacionais a decretarem novos lockdowns, principalmente na Áustria. Na China, o problema também parece estar longe de acabar, com o país fazendo fechamentos pontuais a fim de evitar novas ondas da doença, já que vai sediar os Jogos Olímpicos de Inverno dentro de 3 meses. Por fim, na África do Sul, onde apenas 24% da população está completamente vacinada, uma nova variante apareceu e já infectou pessoas em mais de 13 países.


Embora preocupante, muitos economistas encaram a alta na inflação global como transitória.


Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação nas economias mais desenvolvidas será menor a partir do segundo semestre de 2022. O Banco Central Europeu (BCE) confirma essa hipótese e projeta que a inflação mundial deve ser de 1,7% no final do ano que vem. O mercado acredita que a inflação se normalizará quando a oferta se estabilizar, o que deve acontecer assim que os países retornarem plenamente sua capacidade produtiva que foi interrompida com a pandemia. Por isso, muitos países desenvolvidos ainda não elevaram de forma significativa suas taxas de juros, o que, em um cenário de desaquecimento da economia, pode diminuir o crescimento econômico.


Inflação no Brasil, principais causas:


Apesar de estar sendo um fenômeno global, a alta da inflação no Brasil é uma das mais preocupantes. De acordo com o relatório “World Economic Outlook" publicado pelo FMI, entre todos os países do G20, a inflação brasileira ficará atrás só da Argentina e da Turquia. Ainda segundo o relatório, a inflação no país deverá ser de 7,9%, em abril o órgão projetava em 4,5%. E, para 2022, a estimativa aumentou de 3,5% para 4,0%. Isso é reflexo das condições internas do país.


Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos 12 meses o aumento do IPCA, que é um dos índices que ajudam a determinar a inflação, foi de 10,67%. Esse aumento no valor dos produtos e serviços supera o teto da meta oficial para esse ano. Mas o mercado está confiante que em 2022 a inflação estará dentro do tolerado, que é 3,5% com 1,5% de margem para mais ou para menos, segundo o Banco Central. Esse cenário mais otimista está sendo projetado por causa da expectativa de diminuição dos custos de energia e de combustível, além de uma taxa de juros mais altos. Todavia, riscos fiscais, cambial e instabilidade eleitoral não permitem que se considere que a inflação seja muito baixa. Além disso, como a inflação atual se reflete na inflação futura, conceito da inércia inflacionária, muitos dos efeitos da inflação atual serão sentidos só no ano que vem.


Toda a cadeia produtiva está inflacionada. Os maiores expoentes desse processo são o aumento do preço dos alimentos e gás de cozinha, da energia elétrica, dos combustíveis e do dólar. Os alimentos tiveram uma alta expressiva, em razão de vários fenômenos climáticos, como secas e geadas, que impactaram a produção das lavouras brasileiras. Além disso, a seca deflagrou a crise hídrica e diminuiu a geração de energia das hidrelétricas, sendo assim, houve a necessidade de ligar as termelétricas, uma fonte muito mais cara de energia, para suprir a demanda nacional. Os combustíveis e o gás natural vêm sofrendo altas constantes desde o começo do ano, muito em função da diminuição mundial da extração de petróleo, que ocorreu por causa da pandemia, encarecendo os barris à nível mundial. Mas, uma das maiores razões para o aumento da inflação é o câmbio, a moeda brasileira está continuamente se desvalorizando frente ao Dólar e, como para vários setores muitas matérias primas são importadas, isso encarece os produtos finais. Além disso, para as cadeias que têm a possibilidade, fica muito mais atrativo exportar, o que também encarece os produtos no mercado interno, como é o caso das commodities.


Para 2021 foi esperado que a alta das commodities auxiliasse o Real a se valorizar, pelo fato de o país ser um grande exportador e ter custos em Real. Mas, as incertezas fiscais, políticas, as políticas sanitárias e o discurso segmentado entre o governo federal e os governos estaduais, durante a crise sanitária do Covid-19, auxiliaram no aumento das incertezas do país, fazendo com que os investidores considerassem o Brasil como um local de alto risco-país. Isso diminui a confiança e reduz a oferta de moedas estrangeiras. A expectativa é que o dólar se mantenha em patamares elevados, cerca de R$ 5,50 até o final deste ano e permaneça assim em 2022. Mas é ideal que o país passe mais confiança para os investidores e tenha políticas que evitem romper o teto de gastos, para que se consiga diminuir o câmbio a longo prazo.


Para combater a inflação, o Brasil iniciou desde o começo do ano, aumentos na SELIC, taxa básica da economia. Todavia, isso prejudica a recuperação econômica do país, pois o crédito fica mais caro, diminui o consumo das famílias e o investimento das empresas. Além de tornar menos atrativo o investimento nas empresas e mais atrativo investir em títulos públicos. Tudo isso impacta o PIB a longo prazo, já que diminui a geração de empregos e renda, como pode-se perceber pela projeção do banco Goldman Sachs que rebaixou a expectativa do PIB do país em 2022, de 1,5% para 0,8%. A Selic, segundo o Copom, em outubro, é de 7,75% e deve fechar 2021 com 9,5%. E em 2022 com 4,1%. Todavia, como o mercado já está desaquecido, essa forma de controlar a inflação é vista como preocupante por alguns economistas, já que o aumento dos preços está em setores básicos da economia, onde é mais difícil diminuir o consumo, mesmo com os preços mais elevados.



Tenho algumas dúvidas, o que fazer?


Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.


Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq@usp.br


Vamos conversar!


Mário Leonardo Cavicchioli e Merilyn Taynara Accorsi Amorim


23/11/2021


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