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Investimento no Exterior

Quando se começa a investir em ativos financeiros, especialmente os de renda variável, é comum se deparar com o tema de investimentos no exterior e, em períodos de instabilidade econômica ou política local, esse assunto chama ainda mais a atenção de investidores brasileiros. Mas qual a diferença entre investir aqui no Brasil e lá fora?


Talvez o aspecto de maior importância ao se investir no exterior é ter parte de sua carteira de investimentos atrelada a outro tipo de moeda que não somente o real, sendo as mais comuns o dólar e o euro. Em outras palavras, é uma maneira de diversificar a carteira, expondo-se à variação cambial. Isso permite não só proteger parte de seu patrimônio caso haja uma desvalorização da moeda local, como também lucrar caso a moeda estrangeira venha a se valorizar. Como exemplo, pode-se supor que alguém detenha ações de uma empresa norte-americana: ainda que o preço da ação desta empresa esteja estável, o valor das suas ações em relação ao real aumentará caso haja uma alta no dólar, na mesma medida de uma possível desvalorização perante a moeda brasileira em caso de quedas na taxa de câmbio.


Em todo caso, para quem já investe em ativos da bolsa brasileira, a ideia de dolarizar parte dos investimentos fica ainda mais atrativa ao entender que o dólar e o Ibovespa apresentam uma correlação negativa, isto é: quando um sobe, o outro tende a cair, oferecendo maiores possibilidades de retorno e uma menor exposição ao risco.


Um estudo realizado pela Economática constatou que o Ibovespa acompanha os índices americanos em momentos de altas e baixas, mas os índices americanos conseguem, ainda sim, ter uma evolução muito maior do que o Ibovespa. Isso pode ser explicado tanto pela desvalorização do real quanto pelo fato do mercado americano ser o maior mercado global, onde mais de 65% da população americana investe no mercado de capitais. Isso sem contabilizar os investidores estrangeiros, ou seja, é muita gente.

Logo, se torna fácil perceber que o leque de opções de ativos financeiros aumenta substancialmente. Ao se investir no exterior, não é mais necessário ficar restrito apenas a empresas do país, pois também se pode ter acesso a qualquer outra empresa de capital aberto do mundo, entre elas, muitas já consolidadas e com grande valor, boa gestão e credibilidade no mercado.


Como se expor a outra moeda?

Existem basicamente quatro formas de se investir no exterior, são elas:

  • Investimento Direto

  • Brazilian Depositary Receipt (BDR)

  • Exchange-traded Fund (ETF)

  • Off Shore

Este último se dá por meio da abertura de uma empresa no exterior. Como se trata de um caso muito específico e menos comum, não será detalhado neste artigo, mas é importante saber que existe. De forma resumida, pode-se dizer que o Off Shore é um método mais custoso e burocrático porque há a necessidade de se custear a empresa, por outro lado, tem-se a vantagem de menos taxações de impostos.


Investimento Direto


Para quem já investe na B3, essa forma de investimento é muito semelhante e se dá por meio da abertura de conta em uma corretora no país em que se deseja investir e do posterior envio do dinheiro do Brasil para lá. Isso garante que a negociação dos ativos se realize diretamente em bolsa estrangeira, permitindo o acesso aos maiores mercados do mundo. Dessa forma, também há a possibilidade de se operar no mercado fracionário, sendo possível comprar e vender ações unitárias e não necessariamente o lote inteiro.


Importante ressaltar que as legislações e as regulações vigentes são relativas ao país em que se está investindo, e não às leis e normas do Brasil. Da mesma forma, a taxação de herança e de impostos também se dá por definição externa, podendo ser muito diferente das que temos aqui em território brasileiro, sendo importante conhecer e estar atualizado sobre o funcionamento de cada local em relação ao assunto. Aqui no Brasil, por exemplo, há a isenção de imposto de renda quando a venda de ativos pela pessoa física não ultrapassar 20 mil reais mensais, já nos Estados Unidos, o valor máximo para isenção é de até 35 mil dólares mensais.


Escolher uma boa corretora para investir diretamente no exterior é uma etapa muito importante do processo. Para isso é importante se atentar a três pontos:

  1. Conversão cambial: caso a corretora escolhida não realize esse tipo de serviço, será necessário utilizar uma remessa online.

  2. Tradução: algumas corretoras oferecem a tradução automática para clientes estrangeiros, no entanto não são todas e isso pode ser um aspecto de interesse para os investidores que necessitem dessa facilidade.

  3. Custos e tributações: é fundamental se atentar aos custos envolvidos, tais como custo das operações, imposto sobre transações cambiais, taxas de depósitos e retiradas, spreads cambiais e taxas de corretagem. Hoje em dia, há muitas instituições com custos de corretagem baixos ou até nulos. Além disso, seus investimentos no exterior deverão ser declarados no Brasil e por conta disso, pode ser necessário um suporte para te auxiliar na hora de declarar seus investimentos internacionais, para não ter sérios “problemas com o leão”.


Brazilian Depositary Receipt (BDR)


Essa forma de investir no exterior é uma possibilidade recente para pessoas físicas no Brasil. Desde outubro de 2020, tornou-se possível a compra e venda de recibos de ações de companhias listadas no exterior, os chamados "BDRs". Tais certificados correspondem a empresas estrangeiras e são custodiados por instituições do país de origem, mas emitidos no Brasil por instituições habilitadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).


Na prática, é possível negociar os ativos diretamente pela B3 por meio do recibo, mesmo não tendo acesso direto à ação, simplificando muito o processo para quem já tem conta aberta em alguma corretora brasileira. Da mesma forma que uma ação propriamente dita, quando uma ação se valoriza, o recibo também, por consequência.


Há basicamente dois tipos de BDRs: O “patrocinado” quando há o envolvimento da empresa estrangeira que está sendo negociada e o “não patrocinado”, quando não há envolvimento, sendo a forma mais comum encontrada.


Para que ocorra a negociação, basta procurar o ativo pelo seu código correspondente na B3 por meio de uma corretora brasileira. Esse código conta com 4 letras e dois números que geralmente terminam com 32, 33 (no caso das patrocinadas) ou 34 (no caso das não patrocinadas), como por exemplo o código DISB34 que corresponde à empresa The Walt Disney Company.


No Brasil, a maioria das BDRs são de empresas dos Estados Unidos, mas não só. Há também empresas da Irlanda, Holanda, China, México, Reino Unido, Bélgica, Japão, entre outros países. Naturalmente, a quantidade de ações disponíveis é bem maior quando se escolhe investir diretamente no exterior, pois não são todas as empresas de capital aberto listadas fora que estão disponíveis na forma de BDRs. Ainda sim, há mais ativos disponíveis em BDRs do que as próprias ações brasileiras listadas na B3, que hoje totalizam 360. No site da B3 estão listados quais são os BDRs disponíveis para se investir no Brasil (BDRs | B3) e clicando sobre cada um, é possível obter informações mais detalhadas como o código, site da empresa, cotação, entre outros.


Logicamente, a liquidez dos ativos internacionais é maior quando optamos pelo investimento direto onde há um maior volume de negociações, no entanto, essa diferença não tem sido mais um aspecto significativo. De fato, a liquidez dos BDRs era muito baixa quando esse tipo de investimento era restrito a investidores qualificados, mas após a liberação para os demais investidores, a liquidez aumentou notadamente.


Para facilitar ainda mais o investimento em BDRs, algumas gestoras realizaram um desdobramento de seus recibos internacionais. Isso deixou as BDRs com um preço mais acessível, mesmo não mudando nada na estrutura. Um exemplo é a BDR da Amazon, que em novembro de 2020 realizou um desdobramento na proporção 1:78. Isto é, apesar de não ter o seu valor de mercado alterado, uma AMZO34 de 8.926 reais, passou a custar 113 reais. Uma diferença considerável que facilita a aquisição por parte de pessoas físicas.


Exchange-traded Fund (ETF)


Outra interessante alternativa se dá por meio do Exchange-traded Fund (ETF), que nada mais são do que composições de ativos que tem o intuito de replicar um determinado índice ou uma estratégia de investimentos. Eles apresentam uma gestão passiva (sem a figura de um gestor de investimentos), são negociados diretamente na bolsa, apresentam uma burocracia menor do que as outras formas de investimentos no exterior e estão sempre atrelados a um índice de referência. A rentabilidade dos ETF costuma ser muito parecida com a rentabilidade do índice que ele replica.


O grande diferencial dos ETFs é justamente a diversificação, uma vez que um único ativo representa um conjunto de empresas, e não apenas uma isoladamente. Em meio a empresas com diferentes performances, haverá algumas melhores, mas outras nem tanto. Diante disso, é verdade que o retorno pode ser inferior investindo em um ETF do que seria caso o investimento se desse em uma ótima empresa das quais ele engloba. Por outro lado, a escolha de empresas para se investir não é tão simples e se o investimento for realizado em uma empresa que performou mal, a perda também será muito maior. Portanto, ele pode ser uma oportunidade de investimento que não demanda um estudo profundo sobre uma empresa específica, além de oferecer menor volatilidade e menor risco.


Possivelmente o ETF mais conhecido seja o IVVB11. Quem não gostaria de ser sócio das maiores empresas do mundo? O IVVB11 replica, em reais, a performance do índice S&P 500, o qual reúne as 500 maiores empresas americanas de capital aberto, sendo possível negociá-lo por meio das corretoras brasileiras.


Além dos Estados Unidos, outros países podem interessar dependendo dos objetivos de cada investidor, como exemplo, um ETF da China e outro da Europa: O XINA11 é o 1° ETF no Brasil focado na economia chinesa, a economia que mais cresce no mundo, ele replica o índice MSCI China composto por empresas chinesas de grande e médio porte. Já o EURP11, é um ETF que replica o Trend ETF MSCI Europe, um índice focado em ações do continente europeu.


Conclusão


A esta altura já deve ter ficado claro a importância de alocar parte da carteira de investimentos em ativos internacionais e que existem diferentes modos de se fazer isso. Dentre as três formas mais abordadas no artigo (investimento direto, BDR e ETF) não existe nenhuma que seja a mais indicada e tão pouco exista alguma que seja pior do que as demais, uma vez que cada uma delas apresenta vantagens e desvantagens.


O perfil de investidor tem grande importância na reflexão de qual forma de investimento será mais adequada. Por exemplo, o ETF pode ser a melhor alternativa para o investidor iniciante, para aquele que não quer ter muito trabalho em pesquisar e acompanhar cada um dos ativos ou que não gosta de se expor a grandes riscos. Já o investimento direto pode ser a melhor alternativa para um investidor mais experiente, que detém maior capital e que sente mais facilidade em se inteirar das novidades do mercado, funcionamento de diferentes corretoras e até sobre legislação tributárias. O BDR, por sua vez, pode ser um meio termo para o investidor que está buscando escolher e estudar empresas estrangeiras mais profundamente, mas que ainda não quer sair de seu conforto operacional, preferindo negociar em uma corretora local a qual já está mais habituado.



Tenho algumas dúvidas, o que fazer?



Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.


Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq.usp@gmail.com.



Vamos conversar!




Fabiana Gonçalves e João Victor Scavasso


08/05/2021

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