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Os critérios ESG: Investimentos de impacto!

Atualizado: 11 de Set de 2020


ESG (Environmental, Social and Governance)


O termo ESG é cada vez mais utilizado no ambiente dos investimentos e tem como ponto principal a representação de fatores ambientais, sociais e de governança das organizações. Tais aspectos são analisados na hora do investidor escolher seus ativos, estudando como fazer o aporte, através de particularidades muito além dos tópicos econômicos e financeiros.

Segundo a provedora global de índices de ações e demais ativos, MSCI (Morgan Stanley Capital International), existem três objetivos ou razões gerais entre os investidores que avaliam a aplicação através da estratégia ESG. Primeiramente a integração, buscando a composição de uma carteira sustentável e resistente, pensando na condição risco-retorno no longo prazo.

Outro fator que colabora para o uso de análise baseada em ESG, diz respeito aos valores, de modo que o investidor procura o alinhamento entre suas aplicações e seus princípios éticos e morais, tanto no ponto de vista pessoal como empresarial. Além disso, o impacto tem relevância, optando por investimentos que gerem resultados sociais e ambientais positivos, em alguns casos colocando à cima do retorno financeiro.


ESG: evolução histórica


Essa atenção com investimentos responsáveis não é de hoje e vem crescendo cada vez mais. Nos anos 1970, os movimentos contrários a guerra do Vietnã nos Estados Unidos, geraram a criação do primeiro fundo de investimentos sustentável, chamado de Pax World Fund, o qual não investia em organizações que colaboraram para o conflito. Associado a isso, em 1990 surgiu o primeiro índice para avaliar investimentos sustentáveis, o Domini 400 Social Index.

Nos dias atuais, as empresas lidam com uma apuração mais criteriosa a respeito de suas ações, por parte de seus stakeholders, que são aqueles ligados à organização de alguma maneira, ou seja, acionistas, colaboradores, clientes, fornecedores. Nesse sentido são requisitadas informações de como as companhias se relacionam com o meio ambiente e de que forma geram benefícios para a sociedade, levando em consideração o relacionamento com consumidores e funcionários.


Nível ESG das empresas


Existem diferentes ferramentas para auxiliar o investidor no estudo a respeito das estratégias ESG das empresas. Diante disso, equipes são designadas a pesquisar de maneira criteriosa as métricas ESG das organizações, esses estudos procuram responder perguntas como: Quais questões ambientais, sociais e de governança são financeiramente relevantes para cada companhia ou indústria?; Como as companhias estão lidando com esses riscos?; Como esses riscos vão afetar o valor de longo prazo da companhia?

Os três pilares ESG, determinados pela metodologia da MSCI, são: ambiental, social e governança, de modo que eles são divididos em temas para facilitar análise. Com isso a questão do meio ambiente é estudada sob o ponto de vista dos recursos naturais, mudanças climáticas e poluição. No que diz respeito ao social estão presentes os temas de capital humano, stakeholders e produção responsável. Por fim a governança estabelece critérios envolvendo governança corporativa e comportamento organizacional.

Com relação a participação no mercado, a Global Sustainable Investment Alliance (GSIA), publica um relatório, a cada dois anos, abordando o tema de investimentos sustentáveis nos Estados Unidos, Canadá, Europa, Japão, Austrália e Nova Zelândia.

Nas informações divulgadas em 2018 (última atualização), são estimados que os mercado global de investimentos sustentáveis é de 30,7 trilhões de dólares, retratando um crescimento de 34% se comparado aos resultados de 2016. Desse número os mercados europeus contribuem com 46% seguido dos EUA com 39%. Além disso, dentre as principais estratégias utilizadas para análise está a integração ESG.


Crescimento Verde

Segundo estudo realizado em Agosto/2020 pelo World Resources Institute (WRI), em parceria com pesquisadores brasileiros da PUC-Rio, IPEA, Coppe-UFRJ e Febraban, entre outros, a mobilização para investimentos em práticas sustentáveis e de redução das emissões de carbono poderia proporcionar ao Brasil um crescimento adicional de 15% do PIB até 2030, o que significa agregar 2,8 trilhões de reais ao produto interno em 10 anos. Ademais, o estudo aponta um impacto adicional de aumento líquido de mais de 2 milhões de empregos adicionais em 2030, sendo metade deles na indústria.

Ainda segundo a WRI, uma adesão brasileira à economia verde tem potencial de transformar setores inteiros: na infraestrutura, por exemplo, o aumento dos incentivos para uso de combustíveis limpos em ônibus, caminhões e aviões pode elevar a frota “limpa” para perto de 30% em dez anos — atualmente, a fatia é inferior a 1%. Na agricultura, atualmente alvo de intensas críticas internacionais devido ao descontrole no desmatamento de florestas na Amazônia e no Pantanal, a massificação de técnicas como a integração lavoura-pecuária-floresta pode aumentar a produtividade em 30%.


(Fonte: WRI - A New Economy For a New Era, 2020)


Novas Exigências


Assim como a demanda por maior responsabilidade ambiental, as fontes de financiamento “verde” têm se ampliado expressivamente nas últimas décadas. Atualmente, os ativos de financiamento sustentável em nível global chegaram a R$161 trilhões, com um aumento de 34% em dois anos, e já representam mais de 50% do total de ativos gerenciados no Canadá, Austrália e Nova Zelândia; quase metade na Europa; 26% nos Estados Unidos e 18% no Japão. Vale destacar as crescentes oportunidades de financiamento para investimentos que promovam a redução de emissão de carbono.

Por outro lado, as pressões para desinvestimento em combustíveis fósseis têm igualmente se intensificado. Pode-se citar o movimento recente do Banco Europeu de Investimento (BEI), que anualmente, fornece R$ 89 bilhões em financiamento de energia, e que se comprometeu a interromper os investimentos em combustíveis fósseis a partir do final de 2021.

Igualmente, o Fundo Soberano Norueguês de Riqueza, o maior do mundo, com cerca de R$5,24 trilhões de ativos, e que foi construído a partir de receitas geradas pela exploração de petróleo e gás, está deixando os investimentos nesse tipo de exploração por razões financeiras. Outro exemplo é o “Green Deal Europeu”, que tem por objetivo destinar 40% de um pacote de socorro de 750 bilhões de euros a negócios à base de energias renováveis.

Ao mesmo tempo, o mercado nacional de títulos verdes da China expandiu-se rapidamente, com emissão total de R$ 318,95 bilhões, em outubro de 2018.

As empresas brasileiras já sentem os efeitos claramente. O leilão mal subscrito dos campos de petróleo offshore do pré-sal brasileiro, próximos da reserva ambiental de Abrolhos, na Bahia, foi um sinal da crescente relutância em investir em ativos de combustíveis fósseis no longo prazo.

Nessa mesma linha, o fundo de investimento BlackRock emitiu comunicado a investidores declarando a importância dos critérios de Environmental, Social and Governance (ESG) para compreensão dos riscos e mensuração do retorno associado a investimento em renda fixa, multi-ativos, equity e outros ativos.


Investimento Verde

Cabe destacar o importante papel do mercado de capitais no financiamento da expansão da economia verde, através dos chamados “green bonds”, ou títulos verdes. Esses papéis de renda fixa são emitidos por empresas para captação de recursos destinados a financiamento de projetos com impacto ambiental positivo em diversas áreas, de reflorestamento a transporte público.

Tais pais podem ser emitidos através de diversas modalidades de papéis, como debêntures, debêntures incentivadas (de infraestrutura), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, entre outros. No Brasil já foram emitidos seis títulos verdes, negociados na Bolsa de Valores, a B3, de empresas de energia, papel e celulose e da indústria química. Porém, há um enorme potencial de crescimento. A região da América Latina e Caribe representa apenas 2% do mercado global de títulos verdes, sendo o Brasil o maior mercado da região, com participação de 42% das emissões nos últimos cinco anos – US$ 5,41 bilhões. Em perspectiva, em 2019 as emissões e empréstimos globais de títulos verdes atingiram o patamar recorde de US$202 bilhões.

Os atuais papéis emitidos no Brasil possuem vencimento médio de 5 a 10 anos e focam, sobretudo, nos setores agrícola e florestal: Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), que somaram transações acima de US$ 46 bilhões.

Cabe destacar que os green bonds costumam apresentar como atrativo, além do incentivo à sustentabilidade, uma maior transparência em relação à alocação do valor arrecadado e que as companhias que emitem esses papéis costumam ter uma governança corporativa mais forte, o que diminui o risco de perdas.

Ademais, como os projetos de impacto ambiental são tipicamente caracterizados por ativos e tecnologias que requerem investimentos de longo prazo, podem atrair investidores institucionais, como fundos de pensão, fundos de previdência social, seguradoras e outros gestores de ativos.


Responsabilidade Compensa


E as empresas listadas em Bolsa, assim como outros grandes players do setor produtivo, já estão bem cientes dos benefícios da economia verde. A Raízen, importante player do setor sucroalcooleiro, já começou a adicionar produtos sustentáveis em seu portfólio, e tem colhido bons resultados. A produção da safra anual de do etanol do tipo E2G, caracterizado pela emissão de carbono 35% inferior ao padrão, foi praticamente 100% vendida nos três primeiros meses do ano — já com a economia global afundando nas incertezas da pandemia. O produto, produzido a partir de 2019, foi desenvolvido ao longo de sete anos e está entre as apostas da empresa para os próximos anos.

Já na Natura, líder no setor de cosméticos, a agenda de sustentabilidade também tem recebido especial empenho. A empresa aderiu recentemente ao “Transform to Net Zero”, uma coalizão de empresas liderada pela Microsoft para eliminar a poluição de seus negócios em 30 anos. Para a Natura, o esforço tem sido na elaboração de alternativas a processos industriais poluidores por natureza, como a fabricação de embalagens plásticas. É uma estratégia vital numa empresa como a Natura, presente em 100 países e com 70% da receita vinda do exterior — em especial de países desenvolvidos com consumidores exigentes.

Também na Marfrig, grande nome no setor frigorífico, o investimento em tecnologia para redução de impactos ambientais tem sido uma das principais metas da empresa para o futuro. A empresa já incentiva as fazendas que originam a carne abatida nos frigoríficos a integrar a pecuária às áreas de lavoura e de floresta, de modo que toda a emissão proveniente da criação, do abate e do corte dos animais seja compensada ou evitada. Além disso, em 2019, a empresa passou a comercializar em supermercados uma carne com carbono neutro, fruto de um projeto de mais de dez anos. Em 2009, a Marfrig comprometeu-se a não desmatar áreas da Amazônia e, graças ao uso de tecnologia e gestão, não derruba árvores da floresta nem produz em áreas que pertençam a comunidades indígenas.

A retomada verde também propicia um cenário de grandes oportunidades para startups. Um bom exemplo é a Ambipar, empresa especializada em soluções ambientais, e que recentemente abriu capital na B3, resultando numa das ofertas iniciais de ações mais concorridas do mercado acionário brasileiro: 1,08 bilhão de reais, uma demanda dez vezes superior à projetada. Desde então, as ações da empresa valorizaram 11%, representando um valor de mercado de 3 bilhões de reais, mais do que varejistas como Marisa e Hering.

Outro case de sucesso é da startup paulista Solinftec, que comercializa um software para traçar o trajeto mais curto para máquinas colheitadeiras e trabalhadores darem conta da produção em lavouras como as de cana-de-açúcar e soja, assim economizando gasolina. Segundo o CEO, Rodrigo Ialefice, o sistema já ajudou a evitar a emissão de 680.000 toneladas de carbono, equivalente à emissão anual dos aviões da ponte aérea Rio-São Paulo. Entre os clientes da empresa estão grandes representantes do agronegócio, como Raízen, Cofco e BP.

A economia verde também já incentivou mudanças no setor de construção civil. Um exemplo é a empresa Âmbar, startup de São Carlos que desenvolveu um sistema de construção de casas em blocos, reduzindo o desperdício de materiais.


Futuro Promissor


Os critérios de ESG são cada vez mais considerados pelos investidores, tanto institucionais quanto pessoa física, ao decidirem seus investimentos. Nessa medida, muitas instituições já oferecem índices para mensurar o resultado de empresas com boas práticas de ESG. Há também uma crescente indústria de fundos especializados em investir em empresas que estão na vanguarda das preocupações com ESG. Para analisar o grau de aderência das empresas aos critérios de ESG, muitos índices e indicadores são usados. Cada vez mais as companhias procuram incorporar esse tipo de dado em suas prestações de contas, ao passo que grandes provedores de informação ao mercado, como Bloomberg e FTSE Russell, oferecem aos investidores uma série de dados e análises.

Cabe ainda destacar progressos recentes nesse quesito, como a recentemente anunciada criação de dois novos índices de empresas ESG listadas na bolsa – Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e o Índice Carbono Eficiente (ICO2) - pela B3 e S&P Dow Jones, maior provedora de índices do mundo, o que indica que os fatores ESG só tenderão a ter um papel cada vez mais importante nas considerações e discussões que ocorrem tanto no mercado financeiro nacional quanto internacional, e que este é um tema que merece atenção redobrada do investidor pessoa física.


Tenho algumas dúvidas, o que fazer?

Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.

Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq.usp@gmail.com.

Vamos conversar!



- Guilherme Lima e Luis Felipe P. Speranza

10/09/2020

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