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Por dentro da queda das techs brasileiras.

Seja por seus grandes retornos nas últimas décadas, pela revolução que causaram na sociedade ou pelo glamour da tecnologia, a verdade é que o setor das techs têm ganhado cada vez mais visibilidade no cenário nacional e internacional. Mas como surge uma empresa de tecnologia? No geral elas começam com alguma ideia inovadora para solucionar algum problema ou otimizar algo já existente, sendo muito comum a frase Move fast and break things, que ao pé da letra é: mova-se rápido e quebre coisas. Isso significa que empresas deste ramo precisam ser ágeis em entregar o que prometem (uma facilidade, um novo serviço etc) e precisam quebrar sua concorrência através da inovação. Grandes exemplos recentes de techs são empresas como a Uber, Netflix, Ifood e Nubank que, para revolucionarem seus respectivos setores, precisaram operar durante um bom período com prejuízos.


Graças a estas e outras características, quando estas empresas estão em seus anos iniciais, época em que comumente são chamadas de startups, elas dependem de capital de terceiros, visto que ainda não houve tempo suficiente para formar sua base de clientes e se sustentar. Assim, os credores, sejam eles bancos ou investidores, vêem no futuro uma expectativa de lucro e o trazem a valor presente, conseguindo estimar de maneira mais ou menos certa o tamanho que a empresa pode atingir. Este processo é chamado de valuation por fluxo de caixa, que nada mais é que precificar uma empresa pela previsão dos fluxos de caixa que ela irá receber no futuro. Uma das etapas deste processo é trazer a valor presente o que será recebido no futuro, afinal o que importa é o valor da empresa hoje. Para isto é sempre necessário utilizar uma taxa de desconto que na maior parte das vezes está associada à taxa básica de juros do país da empresa.


Para ilustrar melhor a importância e o efeito da alteração das taxas de juros nessa etapa, observe o exemplo abaixo.


Imagem 1 - Fluxo de caixa figurativo


Fonte: exemplo criado pelos autores.


Quando falamos de fluxos de caixas pequenos e pouco escaláveis, como o fluxo 1, que cresce a uma média de 10% ao ano, a mudança na taxa de juros apresenta um impacto um pouco menor. Agora, quando pegamos startups tecnológicas, que apresentam crescimento médio acima dos 25% ao ano, como o caso do fluxo 2, percebemos que uma simples mudança nos juros apresenta um grande impacto no valor presente da empresa.


É aqui que começa um dos principais motivos das quedas das empresas de tecnologia na bolsa brasileira: com a alta da inflação o COPOM têm optado por subir a taxa SELIC continuamente, castigando de forma colateral o setor mais tecnológico da B3. Como podemos observar no gráfico abaixo, em que temos a cotação das ações de duas grandes empresas techs e em paralelo a taxa SELIC, coincide temporalmente a subida dos juros com a queda nos preços das ações que, até o começo do ano, estavam em suas máximas históricas.


Imagem 2 - Cotação de MGLU3 e LWSA3 junto à taxa SELIC nos últimos 2 anos


Fonte: Brasil Bolsa Balcão; Gráfico dos autores.


Em síntese, o que resulta na queda das empresas techs é a percepção do mercado de que com a taxa de juros básica mais alta a obtenção de recursos, por parte de terceiros, se torna mais difícil para essas organizações. A dificuldade deve-se justamente pelo preço mais elevado que deverá ser pago por empréstimos para financiar suas atividades disruptivas, comprometendo assim seu crescimento acelerado que depende de investimentos massivos para ser alcançado. Isso explica, de certa forma, a redução dos fluxos de caixa previstos em um possível valuation, ilustrado na Imagem 1 deste artigo.


De modo simplificado, o cálculo do valuation “desconta” do valor dos ativos de uma organização uma taxa (a Selic, por exemplo) para trazer os valores futuros para o valor presente. Por isso, quanto maior a taxa maior é o desconto e menor é o fluxo de caixa previsto. Vale observar que o intuito, aqui, foi simplificar o raciocínio de um valuation para a compreensão da questão proposta, a prática de estimar o valor de um ativo vai muito além do que simplesmente o desconto de uma taxa e seu cálculo em valor presente.


Portanto, o aumento da taxa Selic dificulta a obtenção de empréstimos e financiamentos e também compromete as análises dos investidores, utilizadas para guiar a aplicação de seus recursos. Ademais, com as análises sinalizando um cenário complicado para as techs, essas empresas também têm seus recursos advindos dos investidores reduzidos, uma vez que estes podem julgar mais atrativos investimentos conservadores baseados na taxa básica de juros e com menor risco. Afinal a volatilidade do mercado tecnológico oferece um alto risco e se os ganhos não correspondem à altura do risco a atratividade de um investimento pode ser prejudicada.


Tenho algumas dúvidas, o que fazer?


Por ser uma breve explicação é comum que possam surgir dúvidas, ou até mesmo a curiosidade de aprofundar-se mais nesse tema, assim, ficamos a disposição para ajudá-los.


Envie suas dúvidas no e-mail: ligalq@usp.br


Vamos conversar!


Aldo Limonti e Endre Kurotusch


26/11/2021

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